Menu

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Sobre Cracóvia, na Polônia: uma guerra, um Papa e um dragão

Quando comecei a organizar o roteiro da nossa viagem para Europa em 2016, eu só tinha uma certeza: Áustria e República Tcheca estariam no nosso caminho. Mas que outro país (ou países) incluiríamos? Foi aí que, durante as minhas pesquisas, eu me deparei com a possibilidade de visitar a Polônia, país para o qual eu nunca pensara em viajar. E o objetivo de se visitar o país era apenas um: a possibilidade de conhecer Auschwitz, o maior campo de concentração construído pela Alemanha nazista.

Cracóvia

Como a cidade de base para quem quer conhecer o campo de extermínio é Cracóvia, esta entrou automaticamente no nosso roteiro e, assim, programamos dois dias para a mesma, sendo que um dia seria destinado para passearmos pela cidade polonesa, enquanto, no outro, iríamos até Auschwitz. Inicialmente, pretendíamos também conhecer a mina de sal de Wieliczka, um passeio pelo mundo subterrâneo, famoso pelas esculturas e pela catedral de sal. Infelizmente, não sobrou tempo para tal passeio.

Mas visitar Auschwitz valeu a pena? Sim, valeu. Mas foi triste? Sim, muito triste. No entanto, não é por ser triste, não é por representar um dos momentos mais trágicos da história do século XX, que iremos fechar os olhos e fingir que não aconteceu. Muito pelo contrário. Andar por aqueles campos de terror onde milhares de pessoas tiveram suas vidas escravizadas e exterminadas, é necessário. É necessário para que cada um de nós consiga entender o que de verdade aconteceu. É necessário para gerar, em cada um de nós, uma repulsa ainda maior a qualquer manifestação que possa alimentar a intolerância e o ódio. É necessário para que aprendamos a valorizar mais as nossas vidas.




Auschwitz

Mas as marcas da Segunda Guerra Mundial não estão presentes apenas em Auschwitz. Cracóvia foi invadida pelos nazistas logo no início da guerra. Os poloneses não estavam exatamente na lista de amigos de Hitler. E, assim, muitos morreram lutando para defender a cidade. Muitos perderam suas casas. Os judeus foram expulsos do seu próprio bairro para o gueto da cidade. Para os demais poloneses em Cracóvia, agora sob domínio nazista, dizia-se que aqueles judeus portavam doenças transmissíveis e, portanto, deveriam ficar em quarentena. Um muro foi construído em torno do gueto. Os judeus transformaram-se em prisioneiros. Seus pertences foram confiscados. Suas sinagogas não podiam mais ser visitadas. Os judeus tiveram suas riquezas, sua fé e sua dignidade roubadas.

E, até hoje, as marcas da guerra estão por lá. O Kazimierz, antigo bairro ocupado pelos judeus, apenas agora, aos poucos, tem voltado a ganhar vida. O chamado Guetto Judeu mantém parte do clima pesado e sombrio que deve ter sido uma constante durante a guerra. Um pedaço do muro que o cercava continua lá, em pé,  para ser lembrado. A antiga fábrica de Schindler, famoso por ter salvado a vida de inúmeros judeus, foi transformada num museu sobre a Polônia ocupada pelos nazistas. Aliás, recomendo fortemente que qualquer um que esteja considerando visitar Cracóvia, assista ao maravilhoso filme A Lista de Schindler (falarei mais sobre ele e as referências ao mesmo encontradas na cidade em um post específico).

Mas se você está pensando que Cracóvia é apenas sobre guerra e sofrimento, está enganado. A segunda maior cidade do país (ficando apenas atrás da capital Varsóvia), possui um bonito centro histórico, um castelo sobre um monte à beira do rio Vístula e a maior praça medieval da Europa.

A cidade também é uma referência para  os católicos. Afinal, cerca de 92% da população é católica, sendo, proporcionalmente, um país mais católico do que a própria Itália, onde se encontra o Vaticano. Além disso, a cidade se orgulha enormemente por ter sido a terra natal do mais querido papa do século XX, João Paulo II, tendo sido, a sua canonização, motivo de festa no país.

Do ponto de vista acadêmico, Cracóvia também se destaca por ser sede de uma das mais antigas universidades da Europa: a Universidade Jaguelônica, famosa por ter sido o local onde estudou Nicolau Copérnico e o próprio João Paulo II.

No entanto, um dos aspectos que mais me chamou a atenção na cidade e no país foram as suas lendas. Sabe aquela característica típica da Idade Média de inventar inúmeras lendas, muitas envolvendo dragões? Estas parecem continuar vivas, em Cracóvia, até hoje, Não que os poloneses acreditem nelas. Mas a influência que determinadas lendas tiveram sobre a história e alguns aspectos das principais construções da cidade deram ao nosso passeio por Cracóvia um tom mais lúdico e fantasioso. Algo, até certo ponto, necessário, uma vez que contrastou diretamente com o peso sombrio que sua história recente carrega.

Lenda número 1: Por que a igreja da praça central da cidade tem duas torres tão diferentes?

         A construção das duas torres foi realizada por dois irmãos, ambos arquitetos célebres da cidade. Cada um ficou responsável por uma torre e, durante a obra, um clima de competição se estabeleceu entre os dois, cada um com o objetivo de construir uma torre mais bela do que o outro. O mais velho (que ensinara o ofício ao mais novo) terminou primeiro a sua torre, a mais alta delas. No entanto, vendo que seu irmão trabalhava com muito esforço e cuidado, um medo inconsequente de que a torre do seu aprendiz ficasse mais bela se abateu sobre ele. E, assim, num surto de inveja o irmão mais velho cravou uma espada no peito do caçula, jogando seu corpo no rio Vístula. E, assim, a torre menor ficou inacabada. Tempos depois, assombrado pela culpa, ele confessou o seu pecado e se matou, jogando-se da torre construída pelo irmão mais novo.




Lenda número 2: Por que, a cada hora, um trompete pode ser ouvido a partir da torre mais alta da igreja, na praça central?

            Durante o século XIII, a cidade de Cracóvia estava ameaçada de ser invadida por bárbaros pagãos, vindos do Oriente. Como forma de defesa, um guarda ficava na mais alta torre da igreja, vigiando a cidade. Em uma noite, o guarda que estava de vigia, percebeu a aproximação do exército de bárbaros, tocando seu trompete sem interrupção e alertando os cidadãos. Um bárbaro, no entanto, aprontou o seu arco e atirou uma flecha no trompetista, matando-o e interrompendo, de súbito, o soar do trompete. Mas já era tarde. A cidade fora avisada e conseguiu evitar o ataque surpresa. E, assim, até hoje, em homenagem ao guarda que salvou a cidade, alguém toca um trompete na mais alta torre da igreja, a cada hora que passa, interrompendo abruptamente o seu tocar.

Lenda número 3: Por que há tantos dragões sendo vendidos em lojinhas de souvenir, em Cracóvia?

             O rei Krak (origem do nome Krakow - Cracóvia) vivia tranquilamente no seu castelo acima do monte Wawel, quando uma série de ataques inexplicados começou a acontecer aos habitantes da cidade. A explicação: um dragão passara a habitar uma gruta abaixo do monte, trazendo desgraça à população de Cracóvia. O rei, então, prometeu a mão da sua filha Wanda aquele que conseguisse matar o terrível dragão. Muitos tentaram. Todos falharam. Até que um humilde sapateiro, chamado Skuba, resolveu utilizar a inteligência para acabar com o monstro: encheu um carneiro de enxofre e o colocou na entrada da gruta. O dragão, faminto, devorou todo o carneiro. O enxofre queimou tanto no seu estômago que ele foi obrigado a ingerir a água do rio Vístula até que, não conseguindo parar, explodiu. E, assim, Skuba e Wanda foram felizes para sempre. E até hoje a palavra "skubany" é utilizada na Polônia para designar as pessoas mais espertas. O Dragão pode até ser lenda, mas sua gruta está lá, abaixo do castelo, e pode ser visitada como ponto turístico de Cracóvia.

Claro que existem muito mais lendas polonesas do que apenas estas três.

Castelo de Cracóvia, acima do monte Wawel


Por fim, se você tiver interesse pela história envolvendo a Segunda Guerra Mundial ou se você gosta de fazer passeios turísticos voltados para a religião católica ou apenas se você é fascinado pela Idade Média e suas lendas, Cracóvia pode ser um destino que está faltando na sua lista de destinos futuros.

Nos próximos posts, darei dicas sobre a cidade, descreverei nosso roteiro por suas principais atrações e falarei sobre nossa experiência em Auschwitz e como visitá-lo.


OBS:

1. Este post não recebeu nenhum tipo de patrocínio

Nenhum comentário:

Postar um comentário