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sábado, 30 de dezembro de 2017

Conhecendo a antiga cidade murada de Jerusalém por conta própria

Embora Jerusalém seja uma grande cidade, a maior de Israel, inclusive, é a sua parte antiga e murada que atrai os milhares de turistas que a visitam. Embora pequena, quando comprada ao restante de Jerusalém, esta parte murada tem muito para se conhecer, necessitando, no mínimo, de um dia inteiro para percorrê-la em sua totalidade.

Como saímos bem cedo de Tela Aviv rumo à Jerusalém, chegamos na cidade com tempo para passar o dia percorrendo, com calma, a cidade murada, no nosso ritmo, conhecendo tudo que fosse do nosso interesse. Como não gostamos de tours guiados, fizemos tudo por conta própria e contaremos aqui como foi a nossa experiência.

A cidade antiga de Jerusalém



Mapa mostrando a cidade antiga de Jerusalém circulada. Percebam como a cidade em si é bem maior do que a parte antiga, algo que, realmente, nos surpreendeu.

Uma vez estando hospedado próximo à cidade antiga, você pode fazer como nós e ir até lá caminhando. Ficamos nos arredores da Yafo Street, rua bastante agradável e útil para o turista (com restaurantes, cafés, lojas e casas de câmbio). Basta seguir sempre reto pela rua que você dará de cara com os muros da antiga Jerusalém.

Seguindo pela Yafo Street até a cidade murada

Se estiver hospedado mais distante, basta pegar um tram com destino à prefeitura da cidade, descendo na City Hall Station, localizada bem próximo aos muros. Já contamos como utilizar o transporte público de Jerusalém em outro post.

A estação de tram City Hall te deixa bem próximo aos muros da cidade antiga

Esta praça de palmeiras fica na City Hall

Obviamente, para fazer tudo por conta própria, é importante ler antes sobre a cidade e entender melhor como ela é organizada e onde se localizam os principais pontos de interesse.

A princípio, é essencial saber que a cidade antiga é, praticamente, um grande labirinto cercado por uma muralha. A maioria das suas ruas são estreitas e podem ser melhor denominadas como ruelas ou becos, que só podem ser explorados a pé. Há sinalização frequente apontando a direção das principais atrações, mas nem sempre o caminho é linear. Nós nos perdemos algumas vezes, mas sempre que isso acontecia perguntávamos a alguém o caminho correto e nos reencontrávamos.

A cidade antiga de Jerusalém tem muito mais becos do que ruas propriamente ditas

Também é importante saber que, no interior da cidade, você encontrará onde se alimentar. Há restaurantes para todos os gostos. E muitas e muitas lojas, desde livrarias até lojas de souvenir.

Os bairros da cidade antiga de Jerusalém

A cidade antiga é dividida em quatro bairros ou distritos: o cristão, o armênio, o islâmico e o judeu. Não há, na verdade, uma divisão clara entre eles e nem sempre você sabe exatamente onde um termina e o outro começa. Muçulmanos, judeus ortodoxos, cristãos acabam sendo vistos caminhando por todos os locais, numa mistura cultural que torna a cidade bastante peculiar. No entanto, há algumas diferenças básicas entre os distritos que comentarei mais abaixo.

Em cada bairro, há uma ou mais atração que, provavelmente, você irá querer conhecer, como o Muro das Lamentações no bairro judeu, o Domo da Rocha no bairro islâmico e a Igreja do Santo Sepulcro no bairro cristão. Confesso que não visitamos o bairro armênio por falta de tempo (preferimos priorizar os outros três), de forma que não teremos como dar dicas desta parte da cidade.

Mapa da cidade murada de Jerusalém mostrando a divisão nos quatro bairros: armênio, cristão, judeu e islâmico. Este mapa foi retirado do https://www.itraveljerusalem.com

Listamos abaixo as principais atrações dos três bairros que visitamos:

1. Bairro judeu: Muro das Lamentações e Sinagora Hurva

2. Bairro islâmico: Domo da Rocha

3. Bairro cristão: Igreja do Santo Sepulcro e Via dolorosa

Os portões da cidade antiga de Jerusalém


Outra informação importante: o acesso pela muralha não é único, havendo oito antigos portões que, de diferentes pontos em torno da cidade, permite a entrada do turista ao seu interior.  

Os oito portões (que podem ser vistos no mapa acima) são:

1. Jaffa Gate: considerado um dos principais portões da cidade murada, tem a vantagem de ficar ao lado da Torre de Davi, uma das principais atrações do lugar e de deixar o turista em um pátio com algumas comodidades que podem ser úteis, como o centro de informações turísticas (onde é possível pegar um mapa da cidade antiga), casas de câmbio e locais para comer, comprar água e já iniciar a compra de souvenirs.

2. New Gate: deixa o turista diretamente no bairro cristão.

3. Damascus Gate: dá acesso ao bairro islâmico. Foi o portão mais movimentado que conhecemos em decorrência do típico mercado muçulmano que já começa do lado de fora.

4. Herod´s Gate: também permite o acesso ao bairro islâmico.

5. Lions Gate: é o portão por onde o turista deve sair para chegar ao Monte das Oliveiras.

6. Golden Gate: acredito que este seja o único portão que não dá acesso livre ao turista, já que está localizado na área do Domo da Rocha, cuja visitação só é permitida ao turista não islâmico em um horário específico do dia e por outra entrada (como explicamos mais abaixo).

7. Dung Gate: é o portão por onde se tem acesso ao Muro das Lamentações. Sua entrada é sujeita a uma fila para homens e outra para mulheres, já que é preciso passar por detectores de metal. E é exatamente ao lado deste portão que também se forma a fila que permite o acesso restrito ao Domo da Rocha.

8. Zion Gate: saindo por este portão, chega-se ao Monte Sião.


Entrando na cidade antiga de Jerusalém pelo Jaffa Gate


Escolhemos este portão não apenas por ser considerado o melhor acesso para quem está inciando o passeio pelo local, mas também porque era onde a Yafo Street (nos arredores da qual estávamos hospedados) saia diretamente (embora, olhando pelo mapa abaixo, o New Gate ficasse até mais próximo).

As setas mostram o caminho que fizemos pela Yafo Street até chegar ao Jaffa Gate

No entanto, este caminho nos permitiu ir margeando uma parte da muralha pelo lado de fora até chegar ao portão.

Chegando aos muros da cidade antiga


De um lado a muralha da antiga e o caminho de pedestres que te deixa no Jaffa Gate. Do outro, a parte moderna da cidade
Seguindo pelo lado da muralha




Chegando ao Jaffa Gate


Jaffa Gate

Ainda antes de entrar, dá para ver a Torre de Davi, em cujo interior funciona um museu que conta a história de Jerusalém.

A Torre de Davi, uma das principais atrações da Jerusalém antiga, vista de fora dos muros

Após atravessar o portão, chegamos a um pátio rodeado por lojas, casas de câmbio (que acabou nos sendo útil ao final do dia) e um centro de informações turísticas, onde recebemos um mapa da cidade antiga.

Entrando na antiga Jerusalém pelo Jaffa Gate


Já no interior. Percebam que, nesta entrada, você já encontra uma casa de câmbio


Entrada para a Torre de Davi (no seu interior, funciona um museu)


Torre de Davi

A intenção inicial era já entrar no museu da Torre de Davi naquele momento. No entanto, estávamos empolgados para ver logo a cidade e a ideia de já se trancar em um museu não nos pareceu a melhor naquele momento. Infelizmente, acabamos não entrando mais no fim do dia pois, ao passar ali de novo, ele já estava fechado.

O museu abre das 9 às 16h (exceto nas sextas quando funciona até 14h). Nos meses de julho e agosto, o funcionamento é estendido até às 17h. O ingresso custa NIS 40,00 e pode ser comprado online no site oficial (tours guiados estão disponíveis em hebraico e em inglês).

A Torre de Davi é também o palco de um espetáculo de luzes e som que ocorre à noite, ao ar livre, na cidade, o Night Spectacular. Custa NIS 55,00 e recomenda-se que seja comprado antecipadamente, já que os lugares são limitados. Há um combo em que você pode adquirir a admissão ao museu e o show por NIS 70,00.

Queríamos muito ter visto o show, mas, nas duas noites em que ficamos na cidade, estávamos tão cansados que acabamos desistindo.

Conhecendo o bairro judeu e o Muro das Lamantações

Uma vez no pátio acessado pelo Jaffa Gate, estávamos entre o bairro armênio e o bairro cristão. Mas resolvemos seguir em frente em direção ao bairro judeu para conhecer logo o Muro das Lamentações. Pegamos um mapa no Centro de Informações Turísticas e seguimos em frente.

E lá fomos nós para o bairro judeu

De cara, já percebemos a principal característica desta parte da cidade: limpeza e organização. E, após conhecer os bairros cristão e islâmico, a diferença ficou gritante. As ruelas, becos e prédios são muito mais bem cuidados e limpos no bairro judeu.

É aqui que se encontra janelas com flores, lojas bem mais organizadas e restaurantes mais aconchegantes. Não há aquele amontoado de barracas vendando de tudo um pouco como no bairro islâmico nem aquele monte de loja de souvenir com vendedores querendo de vender algo à força, como no bairro cristão.

O bairro judeu é o mais bonito e agradável da cidade antiga










O inconveniente: às vezes nos deparávamos com jovens israelenses pedindo doação para o exército de Israel. E era preciso fugir deles. Sinceramente, eu até entendo a ameaça constante em que vive o país, de modo que, sem o seu forte e organizado exército, talvez o país tivesse sido tomado, mas também não vou fechar os olhos para o que o povo palestino sofre. Não vou, de forma alguma, contribuir com nenhum centavo para financiar qualquer guerra que seja. E achei bem nada a ver esse tipo de doação está sendo pedida em um lugar de tanta importância espiritual.

Mas continuando o nosso passeio: antes de chegar ao Muro das Lamentações, acabamos nos desviando do caminho (nos perdemos mesmo) e saímos numa área em que resquícios de antigas torres romanas formavam uma espécie de caminho numa área mais abaixo do solo.

O local se chama Western Cardo e corresponde aos restos da mais importante estrada do período em que o Império Romano-Bizantino dominou Jerusalém.

O Western Cardo, uma das relíquias arqueológicas da antiga Jerusalém


As antigas colunas romanas estão localizadas no bairro judeu





E olha uma mesquita ali no alto em pleno bairro judeu (a mistura cultural de Jerusalém é fascinante)

Ali próximo, encontra-se outra atração do bairro judeu: a Sinagoga Hurva. Vimos que era possível conhecer o seu interior e resolvemos retornar após conhecer o muro.

A Sinagoga Hurva, a qual retornamos mais tarde


Próximo à sinagoga, há alguns restaurantes e cafés


Uma das áreas mais agradáveis da cidade antiga

Seguindo novamente o caminho até o muro, chegamos a uma espécie de mirante com vista não apenas para esta relíquia do povo hebreu como também para o Domo da Rocha.

E, finalmente, avistamos o Muro das Lamentações. E, na parte mais alta, o imponente Domo da Rocha. E esta espécie de ponte de madeira suspensa ao lado muro. Na hora em que a vimos também não fazíamos ideia do que era. Mas, daqui a pouco, você entenderá que ela será fundamental para o seu passeio.



Pelas fotos acima, você, obviamente, percebeu que o imponente monumento islâmico com seu lindo teto dourado encontra-se logo acima do Muro das Lamentações. Mas porque exatamente o principal símbolo islâmico de Jerusalém encontra-se tão perto do principal símbolo judeu?

Aqui faço uma pausa para um pouco de explicação histórica:

No local onde fica o Domo da Rocha, havia, no passado, o Templo de Salomão, construído pelo filho de Davi para servir de contato entre Deus e os judeus. No interior do templo ficava a mítica Arca da Aliança e a pedra onde Abraão colocara seu filho Isaac para sacrifício (e de onde Deus teria criado o mundo segundo o judaísmo). Após a destruição do templo por Nabucodonosor, a arca se perdeu para sempre, mas a pedra sagrada continuou lá.

Anos depois, Herodes resolveu construir novamente o templo. No entanto, Tito, o Imperador Romano, invadiu Jerusalém, destruiu o Templo de Herodes e dissipou o povo judeu. E o Muro das Lamentações foi a única estrutura do templo que sobrou. Conta a lenda que Tito o deixou de propósito como lembrança da sua vitória sobre os judeus. E, até hoje, os judeus choram e lamentam no muro, suplicando a Deus (e escrevendo suas súplicas nos papéis que são colocados nas frestas da relíquia) a reconstrução do templo (algo que eles consideram essencial) e a chegada do Messias.

E, assim, o Muro das Lamentações se tornou o segundo local mais sagrado para os judeus. O primeiro? Lembra da pedra de Abraão da qual falei acima?

Pois é! Os judeus não podem reconstruir seu templo nem chegar perto da pedra sagrada para eles, pois, após Jerusalém passar a ser domínio árabe, foi construído o Domo da Rocha exatamente acima desta pedra e no local em que os judeus querem reconstruir o seu templo. E, até hoje, eles são proibidos de acessar o local além do Muro das Lamentações.

Mas espera aí: porque, exatamente, os árabes construíram o Domo da Rocha acima desta pedra? O motivo é que esta pedra também é sagrada para os islâmicos, já que foi, a partir dela, que Maomé, o principal profeta do islã, ascendeu aos céus na companhia do Anjo Gabriel. Segundo a tradição islâmica, o profeta visitou os sete céus, encontrou todos os profetas anteriores a ele (Moisés e Jesus, entre eles) e se deparou com o próprio Deus, retornando ao mesmo local e, então, voltando para Meca, onde faleceu.

E, assim, esta pedra e esta área de Jerusalém se tornou sagrada para os muçulmanos, só perdendo em importância para Meca e Medina.

Entendeu a confusão? O mesmo local é sagrado para as duas religiões. Agora me diga: como isso pode ser resolvido?

Agora imagina se os executores de Jesus tivessem escolhido este mesmo local para crucificá-lo...

Mas voltando ao local de onde apreciávamos estas duas relíquias de Jerusalém, ali mesmo vimos também um dos principais símbolos do judaísmo exposto em uma caixa de vidro ao ar livre: o menorá, o candelabro de sete braços.

Um frande menorá, provavelmente, de ouro, exposto ao ar livre no bairro judeu da antiga Jerusalém

Logo percebemos que, para chegar perto do Muro das Lamentações, precisaríamos descer umas escadas que levavam para fora da cidade murada logo ao lado do Dung Gate. Ou seja, teríamos que sair para entrar novamente, mas, desta vez, passando pela segurança localizada no portão. Israel não se distrai quando o assunto é segurança.

Após passar pela fila e atravessar o Dung Gate, chegávamos, enfim, próximo ao muro. No grande pátio em frente, há fontes de água para o fiéis se purificarem antes de tocar no muro sagrado (pelo menos foi o que entendemos). Aqui, a concentração de turistas utilizando o típico quipá em suas cabeças já era maior. Muitos se aproximam do muro para rezar e deixar lá os papéis com suas súplicas.

Fontes de água para purificação


O Muro das Lamentações


Judeus ortodoxos e não ortodoxos rezando no Muro das Lamentações


As súplicas dos judeus deixadas entre as pedras do muro.

o bairro judeu visto a partir do Muro das Lamentações

O que não gostei: um muro improvisado separa o pátio em dois lados. De um lado ficam as mulheres e do outro os homens. Vou nem entrar em detalhes do que acho desse tipo de separação ainda nos dias atuais.

Um muro improvisado separa o lado masculino do lado feminino. E aquela ponte suspensa ali? Já já explico.

Para sair do pátio em frente ao muro, pegamos um beco do lado inverso ao Dung Gate e, quando vimos, estávamos no bairro islâmico. A intenção, no entanto, era visitar ainda a Sinagoga Hurva. Após mais labirintos e algumas direções erradas, chegamos, enfim, à sinagoga.

De volta à Sinagoga Hurva

A Sinagoga Hurva tem como principal atrativo, na verdade, não o seu interior (embora seja interessante conhecer uma sinagoga por dentro, estando em solo judaico), mas o seu terraço superior em volta do seu teto. De lá, tem-se uma ótima vista da cidade antiga.

O interior da Sinagoga Hurva






Vista do terraço externo circular, no topo da Sinagoga Hurva


A antiga Jerusalém vista do topo da Sinagoga Hurva


É possível avistar a cúpula do Domo da Rocha com o Monte das Oliveiras atrás



Uma imagem que representa bem a mistura cultural da antiga Jerusalém: do topo da sinagoga, que ostenta a bandeira do Estado de Israel, vê-se uma mesquita e, atrás desta, uma cruz cristã na torre de uma igreja

A entrada na sinagoga é permitida das 9 às 17h (exceto na sextas, quando fecha às 13h) e custa NIS 20,00 com direito a audio-guia.

Aproveitamos e almoçamos ali mesmo no bairro judeu próximo à sinagoga.

Como conhecer o Domo da Rocha

A visita ao Domo da Rocha (Dome of the Rock) é no esquema "piscou, perdeu". Explico: a visita só é permitida para não muçulmanos durante o período de uma hora apenas a cada dia. No dia em que estivemos lá, esse horário foi das 13:30 às 14:30h, mas não sabemos se é algo fixo ou se muda (por isso é importante se certificar logo cedo ao chegar à cidade murada). E, obviamente, há fila para acessar a área em que fica o monumento.

Mas não pense que estar na fila é garantia para a visita. Se você se atrasar e chegar na fila muito tarde, deu 14:30h, já era. E se você chegar tarde, mas conseguir entrar faltando, por exemplo, 15 minutos para o encerramento da visita, só terá este tempo mesmo para ficar no local. Deu 14:30h você será, automaticamente, expulso. E foi exatamente o que aconteceu conosco.

No entanto, tivemos sorte, já que, por pouco não piscávamos e perdíamos a visita. Lembra que eu disse acima que, ao sair do pátio em frente ao Muro das Lamentações, fomos parar no bairro islâmico? Neste momento, como estávamos bem próximos ao Domo da Rocha, resolvemos pegar um beco que, pela lógica, sairia lá. O objetivo era confirmar a hora da visitação.

Foi a nossa sorte. À medida que avançávamos no beco, as pessoas começavam a nos olhar com uma cara de "o que estes dois estão fazendo aqui?". Logo avistamos uns quatro policiais exatamente no acesso que daria para o Domo da Rocha. Já percebendo que havia algo errado, corri para falar com uma das policiais assim que ela levantou aquele olhar de "lá vem mais dois perdidos".

E ela nos informou que não se permitia o acesso por ali. Aquele acesso era apenas para a saída dos visitantes ou para a passagem livre dos muçulmanos. A entrada dos não muçulmanos ficava no Zung Gate, ao lado da entrada para o Muro das Lamentações. E correspondia àquela ponte de madeira que, até aquele momento, não fazíamos ideia de qual era a finalidade.

E, finalmente, entendemos a finalidade desta ponte suspensa de madeira, ao lado do Muro das Lamentações: permitir o acesso dos não muçulmanos ao Domo da Rocha


Já sabendo, então, o local correto, fomos direto para lá, assim que terminamos de almoçar. Mas a fila já estava bem grande e só conseguimos entrar faltando 15 minutos para o encerramento. A demora ocorre porque há um sistema de segurança ainda mais rigoroso do que o do acesso para o Muro das Lamentações.

E isto não é à toa. Os muçulmanos tem muito receio de algum ataque contra o sagrado monumento deles numa tentativa de abrir caminho para a reconstrução do Templo de Salomão. E, pelo que entendemos, judeus não podem ter acesso ao Domo da Rocha.

Este é o Dung Gate, onde fica a fila para acessar a ponte suspensa que te leva ao Domo da Rocha. A fila fica exatamente ao lado da fila dos que entram para conhecer o Muro das Lamentações

Mas, enfim, o que importa é que conseguimos passar pela segurança a tempo. Percorremos, então, toda a ponte de madeira e acessamos o pátio onde fica localizado a mesquita.

Acessando o monte onde fica o impressionante Domo da Rocha


E aqui vão duas informações importantes:

1. O turista não pode acessar a área com bermuda, short ou saia curta. E os seguranças não avisam isso na fila. Ao chegar à área da mesquita, algum funcionário do local vai te abordar e pedir que você cubra as pernas. Vi um turista resolvendo a situação tirando uma toalha da mochila e fazendo uma saia improvisada com ela. Mas, pelo que percebi, eles fornecem uma saia adequada para os desavisados.

2. Não muçulmanos não podem entrar no interior do Domo da Rocha. Sei que pode parecer frustrante, mas garanto que a beleza externa da mesquita já será recompensadora. Não faça como uma turista que vimos tentando insistir para entrar. Não pode e pronto!

E o Domo da Rocha é, realmente, espetacular. Os detalhes dos azulejos em torno se sua forma octagonal e a cúpula coberta de ouro são incríveis vistos de perto. Sem dúvidas, o monumento mais bonito de Jerusalém. E que pode ser visto de vários pontos da cidade. E é incrível imaginar que isto tudo foi construído no século VII.

O Domo da Rocha, o monumento mais bonito de Jerusalém








A entrada só é permitida para muçulmanos





Ao redor, vê-se algumas famílias muçulmanas passando o tempo e muitas crianças brincando. Uma delas, inclusive, ficou bem curiosa olhando para nós dois, enquanto brincava com uma bola.

Os arredores do Domo da Rocha

Por trás da mesquita, há uns arcos voltados para o Monte das Oliveiras. A vista do monte desta área é muito boa e é possível, inclusive, ver a bela Igreja de Maria Madalena de lá. Vale à pena apreciar e tirar umas fotos.

Por trás do Domo da Rocha, é possível ver o Monte das Oliveiras


Na base do monte, é possível ver a Igreja de Maria Madalena, com arquitetura ortodoxa russa



E enquanto admirávamos o entorno e fotografávamos, obviamente, não percebemos nossos 15 minutos acabarem. E, às 14:30h, em ponto, os seguranças começaram a gritar para que nos retirássemos (estávamos mesmo bem distraídos). Fomos expulsos pra valer!

Estávamos bem distraídos com a beleza do Domo da Rocha


Já sendo escoltados para a saída...


Mas com tempo para uma última foto


Saímos pelo mesmo beco por onde havíamos tentado acessar o local mais cedo. Aproveitamos e andamos um pouco pelo bairro islâmico. E posso resumir esta parte da cidade antiga com um único substantivo: tumulto. Era muita gente, vendendo de tudo um pouco. Como as ruas são estreitas, tem momento em que todos ficam espremidos. E, como detestamos lugares assim, acabamos ficando pouco tempo pelo bairro.

O bairro islâmico e seu típico mercado

Nos Damascus Gate

Mas não sem antes nos dirigir até o Damascus Gate para conhecê-lo. Até queríamos subir a escadaria que parece levar ao topo da muralha ao lado do portão, mas não conseguíamos achar. Um garoto nos ofereceu para mostrar o caminho, mas logo percebemos que era apenas uma tentativa de ganhar dinheiro. Deixou-nos num lugar qualquer e ainda descolou umas moedas nossas.

Foi o necessário para perdermos a paciência com o bairro islâmico e seguirmos para o bairro cristão.

Conhecendo o bairro cristão

Havíamos planejado conhecer a parte cristã da cidade antiga, seguindo a Via Dolorosa até a Igreja do Santo Sepulcro. Mas, antes de relatar esse trajeto, acho importante fornecer três curiosidades sobre o bairro:

1. Há muitas igrejas cristãs concentradas neste distrito. No entanto, elas não se limitam à Igreja Católica Apostólica Romana, como alguns podem pensar (embora seja esta a Igreja a administrar o Santo Sepulcro). Há também igrejas ortodoxas gregas e russas, igrejas armênias, igrejas anglicanas, entre outras. Em algumas estações da Via Dolorosa, haverá igrejas sob uma ou outra administração.

2. Há muitas lojas no bairro cristão, especialmente, de souvenirs relacionados ao cristianismo (cruzes, crucifixos, santos, etc). Ao contrário do que se possa imaginar, estas lojas são administradas, em sua grande maioria, por muçulmanos. Afinal, a parcela de cristãos morando em Jerusalém é muito baixa. O chato é que, a maioria dos vendedores só falta colocar uma arma na sua cabeça para você comprar algo. E querem te convencer que a madeira de um crucifixo veio de uma oliveira do monte ali perto. Ou que a areia dentro de uma cruz é sagrada. Portanto, entre nas lojas preparado.

3. Você verá, com frequência, uma cruz diferente da que costumamos conhecer. Com seus quatro braços de igual tamanho e com uma cruz menor em cada quadrante da cruz maior, é a chamada Cruz de Jerusalém. Foi instituída durante a Primeira Cruzada como símbolo do Reino de Jerusalém e, por isso, é também conhecida como Cruz das Cruzadas.

Mas voltando à Via Dolorosa, ela corresponde ao caminho percorrido por Jesus Cristo da sua prisão até a pedra onde foi crucificado (e vai do Lions Gate até a Igreja do Santo Sepulcro). 

Ao longo do trajeto, vê-se as 14 estações da cruz (na verdade, as 5 últimas se localizam no interior da Igreja do Santo Sepulcro). No mapa da cidade murada mostrado no início deste post, há a descrição do que representa cada estação.

Para iniciar o caminho, seguimos em direção ao Lions Gate. E, então, fomos fazendo o caminho de volta, seguindo a numeração das estações em algorismos romanos.

A Via Dolorosa




 Mas antes de seguir o caminho, percebemos uma igreja que tinha escrito, em sua porta, "Prisão de Cristo", ali pertinho da estação I. Óbvio que entramos (até porque era gratuito). A igreja de administração ortodoxa grega afirma que ali, no seu subterrâneo, foi onde Jesus ficou preso antes de seguir com a cruz até a sua crucificação. Descemos ao local, mas achamos pouco sinalizado e não conseguimos identificar, com certeza, qual seria a cela de Cristo.

Esta igreja ortodoxa grega afirma que, aqui, foi a prisão de Jesus Cristo

Depois descobrimos, no entanto, que outras igrejas ali perto, como a armênia, por exemplo, afirma que é lá o local correto da prisão. Enfim, cada uma querendo ser mais importante do que a outra. Na verdade, há controvérsias até mesmo se este caminho seria mesmo a Via Dolorosa correta, já que alguns historiadores afirmam que estas ruas nem mesmo existiam na época de Jesus.

De qualquer modo, saímos da possível prisão e iniciamos o caminho. No início, você consegue achar as estações, identificadas por algoritmos romanos. Em uma delas, destaca-se uma mão impressa no cimento de uma parede. Neste local, Jesus teria se apoiado. É comum ver as pessoas tocando o mesmo lugar.

Na estação III, onde Jesus teria caído sob o peso da cruz, está uma Igreja Armênia

A estação IV teria sido aquela em que Maria viu Jesus carregando a cruz
Se não me engano, esta era a estação V

O problema é que, antes de conseguir chegar à Igreja do Santo Sepulcro, nós nem conseguíamos enxergar mais as indicações das estações, perdidos no meio do exagerado comércio que tomou conta do lugar. E quanto mais andávamos, mais tumultuado e desorganizado ficava. Quando menos percebemos, não conseguíamos mais ver nenhuma estação e estávamos completamente perdidos. Até por açougues passamos, numa ruela que estava bem fedida.

Perdidos no meio do imenso comércio do bairro cristão, tentando encontrar a entrada da Igreja do Santo Sepulcro
Desistimos de encontrar as demais estações e, tentamos, então, achar a Igreja. Após andarmos em círculos duas vezes, finalmente, achamos a sua entrada. No seu interior, uma multidão. Era o local mais cheio que visitávamos em Jerusalém.


A Igreja do Santo Sepulcro


A entrada da Igreja do Santo Sepulcro

Como destaques no interior da igreja, vimos a chamada Pedra da Unção logo na sua entrada, onde José de Arimateia teria preparado o corpo de Cristo para o Sepultamento.


A Pedra da Unção, no interior da Igreja do Santo Sepulcro


Super concorrida

No interior da igreja, é possível ver também a Pedra da Crucificação. Na verdade, a Igreja foi, basicamente, construída sobre ela e não ache que ela estará lá super visível aos nossos olhos. Na verdade, você precisa entrar numa fila gigante (e desorganizada) para chegar perto de uma pequena janela de vidro que te permitirá ver uma parte da pedra.

A janela de vidro que permite a vista da Pedra da Ressurreição fica no interior desta estrutura. Prepare-se para a fila

Até entramos na fila, mas quando descobrimos que o tempo de espera seria de mais de uma hora, culminando com um guia indiano furando a fila e colocando todo seu grupo na nossa frente, desistimos rapidamente. Mas, para os mais religiosos, é uma espera que, muito provavelmente, valerá à pena.

Mais do interior da Igreja do Santo Sepulcro



Nesta ponto, estávamos satisfeitos com o que havíamos conhecido da cidade murada e decidimos continuar o turismo pelas relíquias do cristianismo da cidade visitando o Monte das Oliveiras. Assunto para o próximo post.

Àquela altura, com tudo que aprendíamos durante nosso passeio, uma reflexão tomava conta de nós: três grandes religiões "lutando" pelo mesmo espaço sagrado, dividindo as mesmas relíquias, interpretando de formas diferentes os mesmos fatos. Para nós, só há uma conclusão óbvia: o Deus das três é o mesmo. Conclusão que acabava refletindo nossa visita à sede da Fé Bahá´í em Haifa, no dia anterior, religião que prega exatamente este Deus único comum a todas as religiões do mundo.

Não tem como sair de Jerusalém sem refletir, filosofar, divagar...



OBS:
1. Os preços indicados neste post correspondem aqueles em vigência na época da viagem. Recomendo pesquisar novamente os valores das atrações na época da sua viagem.

2. Este post não recebeu nenhum tipo de patrocínio

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