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sábado, 25 de junho de 2016

Viajando de trem pela China: como ir de trem de Hong Kong para Shenzhen e, daqui, para o resto do país

Nosso terceiro dia em Hong Kong começou com uma jornada rumo ao que podemos chamar de "China real". O destino: a cidade de Guilin. Seja qual for a cidade chinesa que você pretenda visitar (exceto se esta cidade tiver uma condição de relativa independência semelhante a Hong Kong, como Macau), você terá que atravessar a imigração e ter um visto chinês. Portanto, é como se você estivesse saindo de um país para outro. Já falei em detalhes sobre o visto e imigração chinesa em outra postagem.

Neste post, explicarei como ir de Hong Kong para o restante do país, porque não é tão simples como você pode imaginar. Quer dizer, a forma mais fácil seria pegar um avião de Hong Kong para a cidade chinesa pretendida. Mas nem sempre você encontra preços que cabem no seu bolso. No nosso caso, as passagens aéreas estavam caríssimas (talvez devido ao ano novo chinês), nos restando apenas a opção de deslocamento por terra.


A China é eficientemente abastecida por uma extensa rede ferroviária. No entanto, saindo diretamente de Hong Kong, há poucas opções de trechos de trens para as cidades chineses. Não havia, por exemplo, nenhum trem que fosse de Hong Kong para Guilin ou alguma cidade "próxima".

Viajando de trem pela China


Coloco a palavra "próxima" entre aspas por um motivo óbvio: na China, considerando sua imensa dimensão territorial, o termo "próximo" é bem relativo e tudo vai depender da velocidade do trem. Não há ainda, por exemplo, trens de alta velocidade entre Hong Kong e Pequim (embora eu tenha lido que isto já está sendo providenciado) e a viagem de trem entre as duas cidades demora cerca de 24 horas.

Entre as demais cidades chinesas, entretanto, é comum a existência de trens de alta velocidade (mais caros, obviamente), embora isto não signifique exatamente uma viagem de poucas horas, considerando as longas distâncias.

Tínhamos, então, o seguinte problema: queríamos ir de Hong Kong a Guilin, cidade escolhida por nós por ser, entre as de interesse para o turista, a mais próxima para ser acessada por trem (são cerca de 520 Km entre as duas cidades). No entanto, não havia trem direto entre as cidades. O que fazer então?

Pesquisando na internet, cheguei à resposta: vizinha a Hong Kong, está a cidade chinesa de Shenzhen, de onde partem trens regulares para várias cidades do país. E esta dica é fundamental, caso você queira ir, de trem, para alguma cidade da China saindo de Hong Kong. Mas como chegar a Shenzhen? Simples: o metrô de Hong Kong te deixa diretamente na cidade, simples assim.

Para isto, basta pegar a linha azul clara (East Rail Line) e seguir até a sua última estação: Lo Wu. O trajeto é demorado, cerca de uns 40 min. Ao descer na estação de Lo Wu basta seguir a multidão que estará, inevitavelmente, se deslocando para a área de imigração. Aqui, você precisará preencher o formulário específico de imigração (é bom ter uma caneta em mãos), pegar a fila correspondente a estrangeiros e passar pelo funcionário. Nenhuma pergunta nos foi feita e o procedimento foi super rápido.

No entanto, sugiro que você chegue com uma certa antecedência, considerando o horário do seu trem. Nunca se sabe o tempo que você irá perder em uma imigração.

Todos seguindo para a imigração após sair do metrô na estação Lo Wu


E uma observação importante: a linha azul clara tem dois destinos diferentes na fronteira com Shenzhen: Lo Wu e Lok Ma Chau. Li na internet que, nesta última, também tem um serviço de imigração, mas como li algumas informações sobre a China que se mostraram erradas na prática, apenas indicarei aquela que testei e funcionou: Lo Wu. Portanto, na hora de pegar o metrô, tenha certeza que ele está seguindo para a direção Lo Wu e não Lok Ma Chau.

Outra coisa: o seu Octopus Card poderá, obviamente, ser usado neste trajeto de metrô, mas perceba que é um trajeto longo e, portanto, consumirá grande parte dos seus créditos. Portanto, lembre-se de deixar o cartão bem carregado.

Fizemos exatamente como explicado acima e chegamos tranquilamente em Lo Wu. Não sem antes presenciar um conflito entre policiais e manifestantes nas ruas de Hong Kong. Nunca descobri o motivo dos protestos que parecem ter começado durante a madrugada de comemorações do ano novo, mas fiquei aliviado por deixar Hong Kong exatamente naquele momento.

Mas voltando a Lo Wu: Uma vez passando pela imigração, você já estará em Shenzhen. Muitos turistas seguem para a cidade não para pegar um trem para outra parte da China, mas sim para fazer compras, já que, aqui, tudo costuma ser mais barato do que em Hong Kong. Não testei nem conferi já que esta não era nossa intenção, mas, pelo que pesquisei, as coisas lá podem ser mais baratas mas também não existe nada original. Então, cuidado!

Estação de Lo Wu, vista já do lado de Shenzhen, após passarmos pela imigração
Shenzhen - pelo pouco que vimos da cidade, ela nos pareceu bem moderna


Shenzhen


Mas se você for pegar um trem, como nós, terá agora que chegar à estação ferroviária, o que pode ser, facilmente, feito de metrô partindo de Lo Wu. Neste ponto, cuidado: assim como a maioria das grandes cidades da China (e Shenzhen é uma delas), há mais de uma estação de trem na cidade. Certifique-se do nome exato da sua e, a partir do mapa do sistema metroviário de Shenzhen, trace a rota até a estação.

Aqui você pode estar se perguntando: mas como vou saber utilizar o metrô em uma cidade chinesa? Também tive este receio até que uma pesquisa na internet me fez perceber que o metrô em Shenzhen funciona da mesma forma que qualquer outro metrô do mundo. Se você sabe utilizar o metrô de São Paulo, Paris, Londres ou de qualquer outra grande cidade, não terá nenhuma dificuldade aqui. E o melhor: tem tudo escrito também em inglês nas estações da cidade. Afinal, Shenzhen, por fazer fronteira com Hong Kong, ainda funciona como uma espécie de transição para o restante da China, utilizando bastante o inglês nos seus locais públicos (o que não significa que os seus habitantes falem o idioma, o que descobrimos da pior forma possível quando estávamos voltando para Hong Kong. Mas isso é assunto para outra postagem).

Nossa estação de trem era a Shenzhen North e não tivemos nenhuma dificuldade em acessá-la de metrô. Compramos o ticket (uma espécie de moeda) em máquinas de auto-atendimento (o valor varia de acordo com o destino que deve ser informado no aparelho (mas é bem mais barato do que em Hong Kong). Lembrar que aqui a moeda utilizada já é o Yuan e é bom ter a moeda já na chegada a Shenzhen para não ter surpresas. Basta, então, aproximar o ticket no sensor da catraca e devolvê-la na saída na estação de destino.

Máquina para compra do ticket do metrô


Tudo explicado também em inglês


O ticket do metrô de Shenzhen


Sensor da catraca


Aqui, vale uma observação: se o seu trajeto de metrô envolver baldeação, não será possível colocar a estação final (após a baldeação) como destino ao comprar o ticket na máquina. Portanto, você pagará apenas o trajeto até a estação de baldeação. Ao chegar à estação final, você não conseguirá atravessar a catraca para sair, uma vez que falta pagar o correspondente ao restante da viagem. Para isso, você terá que se deslocar a um guichê para pagar a diferença (talvez, comprando diretamente o ticket no guichê logo no início, você evite este contra-tempo).

Pronto! Você já sabe como ir de Hong Kong até uma estação de trem em Shenzhen. Falta, no entanto, saber como comprar a passagem de trem. E aqui, existe um inconveniente: não é possível comprar a passagem pela internet diretamente no website da companhia ferroviária, como fazemos em trens da Europa, por exemplo. Só resta duas opções, portanto: comprar na estação pessoalmente, o que não recomendo em hipótese alguma, já que o risco de não ter mais vaga no trem é alto; ou lançar mão de uma agência de turismo chinesa pela internet.

Para isto, indicamos o serviço da Travel China Guide. Lá existe, entre inúmeras opções de passeios pelo país, um espaço reservado para compra de passagens de trem. Você pode realizar sua pesquisa por trechos e valores como em qualquer outro website de compra de passagens (claro que haverá uma parte do valor referente à taxa de reserva da empresa). Uma vez escolhido o trecho, você realiza o pagamento com o cartão de crédito e informa o hotel em que os bilhetes deverão ser entregues. Eles são bem eficientes e me pareceram bem confiáveis. Chegando em Hong Kong, nossos bilhetes já estavam esperando por nós na recepção.

Mas não pense que, nesta etapa, não enfrentamos nenhuma problema. Afinal, viajaríamos de trem na época do ano novo chinês, o que só nos trouxe dor de cabeça. Faltando 3 semanas para nossa viagem, recebo um e-mail da Travel China Guide, informando que, assim que as vendas do nosso trecho foram abertas, as passagens se esgotaram antes deles conseguirem realizar a compra. Ou seja: não tínhamos mais como pegar o trem direto entre Shenzhen e Guilin. Do mesmo modo, não havia mais vaga no trecho inverso no dia em que deveríamos voltar para Hong Kong.

Foi aí que começou uma busca louca por soluções. A que encontramos: pegar um trem de Shenzhen para outra cidade, Nanning, e, de lá, para Guilin. Daríamos uma volta completamente desnecessária e perderíamos um tempo absurdo. Resultado: no lugar de chegar em Guilin às 16h e ainda aproveitar um pouco da cidade, chegaríamos agora às 22:30h. Mas não havia outra opção.

Para o retorno, tivemos que comprar uma passagem de avião de Nanning para Shenzhen, o que nos gerou o maior perrengue da viagem. Mas esta história ficará para depois.

Conclusão: pegamos um trem de alta velocidade entre Shenzhen e Nanning (em um trajeto de 4:30h) e outro entre Nanning e Guilin (em um trajeto de 2:30h).

Um dia inteiro perdido. No entanto, as atrações do dia ficaram por conta das incríveis estações de trem de Shenzhen e Nanning. Enormes, modernas e com excelente infra-estrutura, elas chamaram nossa atenção para a engenhosidade chinesa. Foi também o dia do nosso primeiro contato com algumas curiosidades do país, como as estranhas especiarias vendidas em lojas de conveniência e o banheiro sem privada, equipado apenas com um buraco no chão. Também percebemos a enorme diferença de gastos em relação a Hong Kong. Finalmente, nossos bolsos respiravam um pouco.

Estação de trem Shenzhen North



A frente da estação em Shenzhen era super bem cuidada


E tinha essa moderna escultura



O interior da estação de trem em Nanning (a Nanning East). Os chineses estão de parabéns. Melhor do que muito aeroporto no Brasil.


Como previsto, chegamos bem tarde em Guilin e pegamos um táxi até o nosso hostel que ficava próximo à estação. Depois de tantos metrôs e trens, só nos restava dormir para aproveitar o outro dia (aquele pelo qual eu mais ansiava), que incluiria o passeio de barco pela belíssima paisagem que margeia o rio Li em direção a Yangshuo.


OBS:

1. Este post não recebeu qualquer tipo de patrocínio.

Um comentário:

  1. Oi Nestor!! Relatar estas minhas experiências e, desta forma, auxiliar os outros em suas viagens chega a ser terapêutico para mim! :)
    Certeza que sua viagem pela Ásia será show!!!

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